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Américo Rodrigues consciente de que «estaria a prazo»

Diretor artístico e financeiro do TMG foi demitido a semana passada pelo telefone por Álvaro Amaro

Demitido da direção do Teatro Municipal da Guarda (TMG) minutos depois de convocar uma conferência de imprensa para esclarecer a polémica da contratação do concerto de Cristina Branco para o Dia da Cidade, Américo Rodrigues considera que o presidente do município «sempre teve a intenção de me demitir desde o primeiro momento». Quanto aos custos relacionados com o espetáculo, o até agora diretor artístico e financeiro do TMG esclareceu que a Culturguarda irá pagar, afinal, 6.774 euros.

Na manhã da passada quinta-feira, Américo Rodrigues informou os jornalistas que Álvaro Amaro o tinha demitido por telefone sem lhe dar possibilidade de emitir «qualquer tipo de explicação». O responsável recordou que o «conteúdo funcional de diretor artístico» lhe permite agendar conferências de imprensa e que, por isso, não se tratou de um «ato desleal», pois sempre o fez desde a abertura do TMG «há oito anos». Contudo, desta vez, «por uma questão de lealdade» informou o novo conselho de administração da empresa municipal da realização da conferência. Neste encontro com os jornalistas, Américo Rodrigues quis esclarecer a opinião pública sobre o espetáculo comemorativo do Dia da Cidade, adiantando que o presidente da Câmara «podia ter esclarecido convenientemente todo o processo», mas «optou por outra atitude, pondo em causa o comportamento e a honra profissional das pessoas que aqui trabalham». «É óbvio que, como diretor artístico, não posso, nem devo aceitar esse tipo de comportamento», afirmou.

O ex-diretor do TMG acrescentou que Álvaro Amaro optou «nalguns casos por ironizar, noutros por evasivas e por dizer que nem conhecia bem o processo», o que, na sua opinião, «não faz qualquer sentido», daí concluir que «é mais sensato acreditar que não quis esclarecer a opinião pública». Após explicar e mostrar «documentos comprovativos da veracidade das informações» aos jornalistas, Américo Rodrigues sublinhou que com a sua demissão, «o presidente da Câmara quis evitar que vos mostrasse o processo porque a sua argumentação quando me demitiu foi que sabia que ia disponibilizar o processo aos jornalistas». O responsável sustentou que o presidente do município «sempre teve a intenção de me demitir desde o primeiro momento» e que, «por motivos artísticos», isso seria «muito difícil». E admitiu que, com a mudança de liderança na Câmara da Guarda, o seu lugar «estaria a prazo», embora julgasse que fosse a administração da Culturguarda a demiti-lo «mais tarde ou mais cedo».

O também ator, encenador e poeta vai aguardar pela oficialização da sua demissão por «ofício do presidente» – o que ainda não tinha acontecido na última segunda-feira, mas revelou entretanto que do «relacionamento de poucos dias que temos» pareceu-lhe que Álvaro Amaro «não estava suficientemente informado nem acerca da importância do TMG, nem da Culturguarda e muito menos da pessoa do Américo Rodrigues, que tem uma irrelevância total para si». Américo Rodrigues considera que a sua demissão deve-se ao facto de ter pretendido «esclarecer um assunto que não estava suficientemente esclarecido e porque me facultei a disponibilizar o acesso a documentos que são públicos». O autarca considerou a atitude «uma falta de lealdade», algo de que discorda o diretor cessante do TMG que vai «consultar um advogado» porque tem «muitas dúvidas das bases legais para este tipo de argumentação». O responsável confessou ainda ter a «intuição» de que a Culturguarda vai ser «esvaziada pouco a pouco de todas as possibilidades de trabalhar». Contactado por O INTERIOR, Álvaro Amaro escusou-se a fazer comentários sobre o caso. Já quanto ao sucessor de Américo Rodrigues, o autarca indicou que «é um assunto a ser tratado pelo conselho de administração da Culturguarda».

Concerto custa à Culturguarda 6.774 euros

Américo Rodrigues esclareceu a verba que o concerto de Cristina Branco vai custar à Culturguarda: 6.774,07 euros, isto com o IVA referente ao cachet, no valor de 5 mil euros, incluído. O restante deve-se a deslocações, alimentação da equipa, uma afinação de piano, catering e despesas com a Sociedade Portuguesa de Autores.

Na proposta inicial que o anterior executivo camarário aprovou constavam 9 mil euros, dos quais 7.200 euros eram relativos a estas despesas «relacionadas diretamente com o espetáculo» e 1.800 euros de «despesas de produção» como a «cedência do grande auditório com equipa técnica e material técnico, a própria divulgação e convites do espetáculo». A estes 9 mil euros juntava-se o IVA, o que totalizaria então os 11.070 euros. O ex-diretor do TMG recordou que, «segundo a lei do setor empresarial local, as empresas municipais devem ter uma lógica comercial de auto-sustentabilidade», pelo que «temos, por lei, que debitar à Câmara que nos contratou para fazer um espetáculo todas as despesas inerentes». Nesse sentido, considera que «quando o presidente da Câmara diz que a Culturguarda mudou de 9 mil euros mais IVA para 5 mil mais IVA não está a dar uma informação correta», lamentando que Álvaro Amaro tenha utilizado uma expressão «tão grave» como «alcavala» que, «em termos jurídicos, quer dizer intenção consciente de cometer um ato ilícito». Na sua opinião, «não é tolerável que o presidente da Câmara use este tipo de expressão e lance uma ideia de suspeição sobre um assunto que a Culturguarda tratou de forma irrepreensível».

Ricardo Cordeiro Américo Rodrigues garante ter sido demitido sem ter tido possibilidade de dar «qualquer tipo de explicação»

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