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«A ideia base deste mandato é criar condições de emprego para os belmontenses»

Cara a Cara – António Dias Rocha, presidente da Câmara Municipal de Belmonte

P- Quais são as grandes opções para os próximos quatro anos em Belmonte?

R – Vamos continuar as obras previstas, o centro escolar de Caria, o cemitério do Colmeal, a Praça dos Descobrimentos no antigo campo de futebol, a nova junta de Freguesia de Belmonte, e uma grande quantidade de pequenas obras por todo o concelho. Há uma ideia base, que é criar condições de emprego para as pessoas e continuar a atrair investimento e turismo.

P – Assumiu a ação social como primeira prioridade neste mandato. O que vai fazer em concreto?

R – As famílias preocupam-se com os seus idosos e com as suas crianças. Temos de apoiar aqueles que já deram muito ao concelho de Belmonte e que precisam de uma velhice com dignidade. Assim como temos de apoiar as crianças no seu desenvolvimento. Assim, descansamos as famílias, e estas ficam mais livres para desenvolverem as suas atividades profissionais. Vamos por isso continuar a despender um grande esforço financeiro para apoio às nossas IPSS, pois são as instituições que estão mais no terreno, no contacto com as populações, e podem resolver casos concretos de dificuldades económicas e/ou sociais. Esta política de proximidade é fundamental. Também estamos preocupados com a resposta médica no nosso concelho, que infelizmente tem vindo a piorar. Já alertei as entidades competentes que precisamos de mais médicos e mais enfermeiros nas nossas unidades de saúde. Não podemos estar dependentes do Hospital Pêro da Covilhã, já que a saúde não se compadece com a distância nem com o tempo de demora. Um minuto é muito quando se trata de salvar uma pessoa.

P – Anunciou a instalação de novas empresas? Já pode revelar quais são?

R – As negociações com os empresários são sempre demoradas e dependentes de muitos fatores externos. São negociações difíceis. Não são coisas para andar na boca do mundo. A seu tempo faremos saber coisas mais concretas, neste momento importa é sublinhar o empenhamento da autarquia em captar novos investimentos para o concelho de Belmonte. Isso é prioritário. Temos de encontrar condições económicas para manter as famílias no concelho com a qualidade de vida e estabilidade financeira a que têm direito.

P – Qual é a estratégia do município no turismo?

R – Vamos manter a nossa dinâmica de eventos regionais, continuar a acolher seminários e colóquios, marcar presença nos grandes certames turísticos… Este é um trabalho que não pode parar. Pelo contrário, é preciso encontrar sempre novas dinâmicas. Por exemplo, este ano temos um grande investimento num vídeo promocional que envolveu dezenas de habitantes de Belmonte como figurantes, temos um hino que foi gravado pelo Nuno da Câmara Pereira. Vamos também apostar num novo Posto de Turismo, com nova localização e maior interatividade. Vamos ainda desenvolver os projetos de centros interpretativos para a Quinta da Fórnea (vila romana) e para a Torre de Centum Cellas, no Colmeal da Torre. Sempre o disse, o turismo é a indústria do século XXI e estamos apostados em manter Belmonte como um grande cartaz nacional e internacional.

P – Qual é o impacto do turismo judaico e brasileiro na economia de Belmonte? Qual é a estratégia de atuação nestes dois nichos de mercado?

R – Imenso. Sabemos disso. Porque esses são os dois fatores que verdadeiramente nos diferenciam das ofertas turísticas da nossa região. Vamos ter agora na região um workshop internacional de turismo religioso, centrado no judaísmo. Isso demonstra a importância deste setor de mercado – que é bem mais que um nicho. Mas ninguém tenha duvidas que Belmonte é o cartaz principal que atrai os turistas judaicos à região. Temos uma história viva nesta área, e um trabalho de promoção de décadas. Não descobrimos a cultura judaica há dois dias para colocar no cartaz… Em relação aos turistas brasileiros, a ligação é histórica, ancestral, já que somos o berço de Pedro Álvares Cabral. Temos muitas visitas, mas queremos mais. Teremos ainda de fazer um esforço maior na divulgação de Belmonte no Brasil, sobretudo na costa cabralina, na Bahia.

P – Mas também é daqueles que acredita que o turismo é a “galinha dos ovos de ouro” para o desenvolvimento dos municípios da região?

R – Esta ideia dos municípios terem descoberto o turismo não vai dar para todos. Tenho a sorte de estar em Belmonte, na bonita Cova da Beira, e ter uma história e um passado para contar. Muitos concelhos desta região não têm essas mais-valias diferenciadoras. Além disso, temos ainda uma situação geográfica que temos de considerar extraordinária neste eixo entre a Guarda e a Covilhã. E também somos servidos por autoestrada, é pena as portagens, e acreditamos que agora, de uma vez por todas, venhamos a ter a linha férrea da Beira Baixa recuperada e modernizada entre as duas cidades, o que é muito importante para Belmonte.

P – Como está a situação financeira da Câmara?

R – É uma autarquia equilibrada que está a responder aos seus compromissos e tem capacidade de investimento. Os apoios comunitários diminuíram, o que nos obriga a um esforço redobrado na procura de verbas e de apoios, mas esse é o meu papel como presidente, e tenho conseguido manter a autarquia com vitalidade e saúde económica.

P – Há eventos diversificados ao longo do ano. Tem mais alguma ideia que queira implementar neste mandato?

R – Temos uma agenda vasta ao longo de todo o ano, com eventos de maior dimensão para toda a região, e outros mais direcionados para um público local. Modéstia à parte, creio que somos dos municípios mais ativos. A minha aposta é consolidar todos estes eventos, dar-lhes mais notoriedade, um maior impacto financeiro no concelho. De todas as formas vamos ter algumas inovações, como a eleição da Miss Portuguesa, os Colóquios da Lusofonia que regressam, mais provas desportivas… Temos um novo site da autarquia, onde se podem acompanhar todos os nossos eventos. Temos sempre algo para oferecer. Também nos podem acompanhar em PlayBelmonte, no Facebook.

P- O que acha da CIM não ter ainda presidente? Está disponível para ser candidato a líder?

R – Em relação à CIM existe já um consenso entre as diferentes autarquias. Em breve será anunciada a presidência da Comunidade. O meu nome foi equacionado, mas não serei o presidente, pois tenho já demasiadas responsabilidades como a presidência da Rede de Judiarias, da Associação de Municípios da Cova da Beira e da Câmara de Belmonte.

P – Mas revê-se nesta CIM das Beiras e Serra da Estrela?

R – Antes de mais não acredito no projeto das CIM’s. Acabaram os distritos mas o conceito continua na prática e ainda vemos o poder central a considerar cidades como capitais de distrito. A questão é será que o valem e o merecem? Não sei… Aliás, acredito que iremos entrar de novo, brevemente, na discussão da criação de regiões e havendo regiões não haverá razões para haver CIM’s.

Não estou descontente por Belmonte estar na CIM das Beiras e Serra da Estrela, mas devemos todos ir refletindo sobre a sua utilidade e função. Para já não gostei nada de ver morrer a ideia de Cova da Beira, os nossos agricultores, empresários e os seus produtos não merecem isso. Sou um defensor do conceito de Cova da Beira e acho que Belmonte, Covilhã, Fundão e até Penamacor não querem que ele desapareça. Gosto do conceito de Beira Interior, mas é muito amplo e não gostei nada que uma CIM que tem pouco a ver com a Beira Baixa nos tenha roubado a nós a Beira Baixa. Há uma série de conceitos que têm de ser ultrapassados porque depois levam a que estratégias de futuro estejam coartadas por esta divisão que se fez.

P – E o que diz sobre a sede? Deve ficar na Guarda?

R – Não tenho problema nenhum com a capitalidade da Guarda, que é o centro da CIM e justifica-se plenamente que tenha a sua sede. O problema é mais profundo que isso. Vamos ver o futuro, pois o poder central continua muito centralizador e nós, os municípios agora chamados de baixa densidade, temos de ter uma estratégia comum para mostrar aos centralistas de Lisboa que têm de olhar para o interior. Nunca vou esquecer que, no Governo anterior, um secretário de Estado veio a Belmonte e me disse que era num instante que chegava a Castelo Branco, mas que depois foi uma catástrofe para chegar até cá. Portanto, ele nem sabia que se chega a Belmonte em meia hora com a A23.

P – Vai estar ao lado de quem reclama o fim das portagens?

R – Belmonte é um concelho pequeno, com cerca de 7.000 habitantes, portanto a minha força enquanto autarca é o que é: pequena. Mas estarei disponível para juntar a minha voz na luta pelo fim das portagens. E teremos mais força se os autarcas dos municípios da Covilhã, Fundão, Guarda e Sabugal se juntarem por esta causa. Tem de ser possível reverter a cobrança de portagens, caso contrário a desertificação desta região vai continuar a aumentar. Alguma coisa tem de ser feita, precisam-se medidas atrativas, não sei é quais. Por exemplo, por que é que os médicos que venham para a nossa região não devem ganhar mais que os médicos que estão no litoral? Ou pagar menos impostos? Por que é que os empresários que decidem investir aqui não podem ser mais discriminados em termos fiscais? Qualquer dia vêm os empresários e não temos mão-de-obra para trabalhar.

P – Como está a relação com a comunidade judaica de Belmonte?

R – Atualmente preocupa-me um pouco o desafio que Israel tem feito aos nossos concidadãos judaicos para irem viver para lá, pois o sonho de qualquer judeu é regressar à terra prometida. Vamos ver se os conseguimos manter por cá ou fazer regressar quem já foi ou que, pelo menos, sintam vontade de regressar às suas origens. No entanto, a comunidade judaica mantém-se ativa em Belmonte e espero que sobreviva a estas crises todas. Pela nossa parte, o município cá estará para, dentro das suas possibilidades, os ajudar sempre.

Perfil:

Aos 66 anos, António Dias Rocha iniciou um novo mandato na Câmara de Belmonte, onde nasceu e estudou até ir cursar Medicina na Universidade Nova de Lisboa.

«Amo profundamente a minha terra», confessa o autarca, que, em 1982, três anos após concluir a licenciatura, regressou para ser médico e depois diretor do Centro de Saúde local, tal como o pai. É por essa altura que o “bichinho” da política se atravessa na sua vida e o leva para a Assembleia Municipal de Belmonte, onde cumpre o mandato de 1989-93. A experiência agradou-lhe e nesse ano é eleito presidente da Câmara pelo PSD. Ali permaneceu até 2000, quando José Sócrates, então ministro do Ambiente, o convidou para presidir ao Conselho de Administração da recém-criada empresa multimunicipal de água e saneamento Águas do Zêzere e Côa, cargo que ocupou até março de 2003. O “golpe de asa” seria justificado mais tarde com uma candidatura pelo PS à autarquia de Belmonte em 2005, mas a primeira tentativa falha e fica como vereador. Será finalmente eleito presidente em 2013, regressando a um lugar que bem conhece e para o qual foi reconduzido em outubro passado.

António Dias Rocha tem acumulado cargos de responsabilidade nos bombeiros (é presidente da direção e já foi da assembleia-geral), no Centro de Cultura Pedro Álvares Cabral (presidiu à direção e à assembleia-geral) e na Misericórdia de Belmonte (presidiu à assembleia-geral, cargo que voltou a ocupar). Atualmente preside ainda à direção da Rede de Judiarias de Portugal e à Associação de Municípios da Cova da Beira, sendo igualmente presidente da Assembleia-Geral da empresa multimunicipal Resiestrela. Sportinguista «habituado a sofrer, mas que acredita sempre», por cá também deu o corpo ao manifesto e começou como responsável do departamento médico do Sporting da Covilhã (1983 a 1986). Depois foi vice-presidente do Clube Desportivo da Covilhã e presidente da Assembleia-Geral do Sp. Covilhã (1986-1988).

No ano seguinte assumiu a presidência do clube serrano, cargo que desempenhou até 1992. Desta experiência de dirigente desportivo diz ter ficado «vacinado», mas, volvidos estes anos, confessa «muito orgulho» pelo que fez no clube. É sócio da União Desportiva de Belmonte, que apoia «incondicionalmente». Os seus hobbies são simples: ler e estar sentado no sofá a fazer zapping. «É uma vergonha, mas gosto de ver televisão», justifica Dias Rocha, que se diz um homem de diálogo e conciliador. «Gosto de contribuir para que haja os consensos necessários. As lutas entre municípios não têm trazido nada de bom à nossa região, quanto mais unidos estivermos mais benefícios vamos ter todos», afirma este regionalista convicto, lamentando que isso não se tenha notado ultimamente.

É hoje um dos autarcas mais velhos da região – a tal ponto que poderia ter que assumir a presidência da CIM Beiras e Serra da Estrela se não houvesse consenso – mas, fiel ao Sporting, também quer ser «um “leão” no dia-a-dia, a lutar pelo meu concelho e por aquilo que é justo em termos sociais». Quando deixar a Câmara, Dias Rocha continua a ver-se em Belmonte, «tranquilo, a passear com os netos e a família, a acompanhar o que se passa e a constatar que o meu concelho e a minha região estão cada vez mais bonitos». Fã incondicional da Cova da Beira, o presidente da Câmara de Belmonte considera que esta sub-região é «um pouco como o Brasil, tem a mão de Deus, porque tudo o que aqui se produz é bom».

António Dias Rocha

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