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A Cidade Sem Carros

Quebra-Cabeças

É sempre bom ouvir falar da nossa terra, ver na televisão, expostas a milhões de pessoas, as imagens do nosso dia-a-dia. É claro que é também um pouco embaraçoso. É como se entrassem na nossa intimidade. Como se a reportagem da TVI nos invadisse a sala de jantar e filmasse a travessa do bacalhau: “é do mais barato, mas parece apetitoso” diriam, com alguma daquela condescendência de lisboetas.

Imagino os comentários esta semana da equipa de reportagens: “será possível? Uma capital de distrito sem um parque de estacionamento subterrâneo, sem um silo-auto? Estes desgraçados ainda vivem na idade média… Aposto que se entrarmos por aqueles bairros dentro ainda vamos encontrar na rua putos ranhosos e descalços”

Ainda bem que falavam baixinho, que não iriam sem resposta. É verdade que não temos nenhum, diríamos, mas vamos ter muitos. Vamos ter um daqui a uns anos debaixo do jardim José de Lemos, outro na avenida dos Bombeiros, também daqui a uns anos, e outro ainda debaixo da nova Casa de Espectáculos, já para o ano, com 160 lugares – quase o suficiente para albergar os carros que todos os dias são obrigados a estacionar em transgressão no centro da cidade.

É claro que no entretanto a situação vai piorar um bocado. As obras no Jardim José de Lemos e na Avenida dos Bombeiros vão eliminar temporariamente os actuais lugares de estacionamento, elevando a níveis insustentáveis os actuais problemas. Assim como vão piorar já nos próximos meses, quando o centro da cidade se encher de pessoas a fazer as compras de Natal e estas não tiverem a Praça Velha para deixar os carros.

No site da Câmara Municipal da Guarda (http://www.mun-guarda.pt/) não se apresentam soluções para o problema mas publicita-se o dia sem carros. É uma forma de mostrar às pessoas o que é a cidade da Guarda quando se torna de todo impossível estacionar e é também uma antevisão do que vão ser os próximos tempos – ainda sem os parques subterrâneos mas com menos lugares de estacionamento do que há agora. Existe, claro, a alternativa típica de dias destes e que consiste em não ir trabalhar, como nos dias de neve, mas ninguém ganha a vida com muitos dias assim. Ou custa muito ver que, para muita gente que trabalha na cidade e vive nos arredores, a maioria, o carro é a única forma de chegar aqui?

Podem agora os responsáveis camarários queixar-se de que se não fala de outra coisa. Podem até sentir-se perseguidos. Acontece é que a actual situação é apenas o resultado lógico e previsível de décadas de inacção, de cegueira, de políticas insensatas.

Por: António Ferreira

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