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A Cativa

Opinião – Ovo de Colombo

Os gestos calculados e a frieza, o tempo dilatado não concentrado, a emoção das palavras ditas ou por dizer, os corpos próximos sempre distantes — como quando Simon (Stanislas Merhar) e a sua amante, Ariane (Sylvie Testud), se vêem e tocam nas suas imagens através de um vidro translúcido. Em “La Captive” (A Cativa, 2000), ela é uma prisioneira, à mercê dele, impotente. Simon não consegue senão simular os seus encontros sexuais. Ariane diz o nome de uma amiga, Andrée, quando atinge o auge do prazer.

Esta obra realizada por Chantal Akerman passa-se no tempo presente, mas evoca outro tempo, definido por Marcel Proust no tomo de “Em Busca do Tempo Perdido” que inspirou o filme. Uma memória inconsciente do passado que é fonte latente do presente que se faz. Ariane olha uma estátua e reconhece-se, porque também ela é adorada como uma escultura. Presa a essa imagem, ao seu fatalismo cismado, só tem de repetir uma pergunta: «Quer que vá?» Para o quarto de Simon, entenda-se. Da primeira vez, ele chama-a pelo telefone como se ela estivesse noutra casa. O costume instala-se, mas mais tarde uma questão dele materializa o olhar que ele deita sobre ela: «Em que pensas quando fazes amor?» Ele quer conhecer o mundo dela. Para ela, o amor é esse desconhecimento, um mistério que se adensa.

A obsessão dele tudo contamina. No início, aparentam ser desconhecidos. Ele segue-a à distância, nada parece saber sobre ela, por isso tenta recolher informações no hotel onde ela esteve. Mais tarde, sabemos que vivem na mesma casa e são estranhos um para o outro. Ela domina os planos, entrando e saindo de campo sem aviso. Nas primeiras imagens, vindas de um filme projectado que Simon vê, ela surge numa praia acompanhada por outras raparigas, mas a câmara vai-se dirigindo a ela, destacando-a. Simon completa este pequeno filme como cineasta e espectador, dizendo o que não se ouve ela dizer («Amo-te muito») e tornando-se numa silhueta sobre a projecção.

No final, ele decide terminar o relacionamento e leva-a de automóvel para casa da tia dela. Sentam-se nessa grande casa vazia e retomam a relação como se nada importasse. O enfado burguês representado neste filme é o reverso do retrato da condição proletária que a cineasta belga fez em “Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles” (1975), a partir das longas rotinas de uma mãe viúva e prostituída. No regresso, é Ariane que está ao volante. Param e, fitando o mar, ela oferece-lhe o último beijo. Nesse momento já ele a tinha perdido, mas só o saberá quando ela não voltar de um mergulho e ele não a conseguir salvar. Simon foi afundado pelo seu engano.

Sérgio Dias Branco*

* Coordenador de Estudos Fílmicos e da Imagem (Mestrado em Estudos Artísticos) na Universidade de Coimbra

**O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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