A militância é a alavanca na defesa dos Valores de Abril

Escrito por Honorato Robalo

“A ofensiva anticomunista, a mobilização de todos os instrumentos de condicionamento ideológico, a parafernália de meios postos a que recorrem os centros do grande capital revelam com nitidez quem, aqueles que querem perpetuar o sistema de dominação capitalista, identificam como perigo e inimigo principal.”

Duas datas históricas, o 25 de Abril e 1º de Maio, relevam a importância da luta de massas e sobretudo do reforço da democracia participativa.
E isso é tanto mais relevante quando vejo algum desânimo e sobretudo falta de militância no assumir das posições que julgamos justas, mesmo que a realização das eleições não iludiu os problemas e dificuldades que estão colocados aos trabalhadores, ao povo e ao país. Sei das dificuldades não apenas por me confrontar no meu local com os diversos problemas que decorrem do desinvestimento no SNS e as consequências da destruição das carreiras profissionais. No concreto, cada comunista deve escalpelizar o rol dos problemas que advêm das decisões políticas contrárias às conquistas de Abril. Temos que ter a noção clara do efeito que o reforço da sua intervenção tem no desenvolvimento da luta de massas e na convergência com outros democratas e patriotas para enfrentar o que está colocado.
Devemos assumir um papel claro de confronto e combate real a projetos e forças reacionárias, com a coragem e determinação que a história do PCP testemunha, denunciando-as, expondo os seus objetivos, não as subvalorizando, mas não as agigantando, recusando contribuir para a sua promoção mesmo ainda que invocando o seu combate. Denunciando e combatendo o que em concreto a maioria PS vai traduzir de agravamento dos problemas a partir da sua política e opções, não perdendo de vista que é nisso e nas suas confluências com o PSD em matérias nucleares, as mal chamadas “reformas estruturais”, que na atual conjuntura política de natureza ideológica de direita tem o primado com o alto patrocínio do Presidente da República.
Mesmo com o decréscimo da militância é fundamental que haja a noção clara que é no PCP que os trabalhadores encontrarão a força mais decidida de oposição à política que PS por si só, ou em circunstâncias que o exijam contando com o PSD, fará ao serviço do grande capital. O avolumar dos problemas e dificuldades na vida de milhares de pessoas, o agravamento das desigualdades e injustiças, a ausência de solução e resposta ao que se exige, o bafejamento dos interesses dos grupos económicos e do grande patronato ampliarão o descontentamento, protesto e luta.
Descontentamento e protesto que tem de ser traduzido no engrossar da base social de luta não só pela defesa e efetivação em concreto dos seus direitos, mas também para ampliar a força de uma alternativa política. Os objetivos de luta de concretização de rutura com a política de direita e de construção da alternativa exigem que o justo descontentamento popular some para a afirmação e exigência de uma política ditada pelos valores de Abril e não que reverta para os que, brandindo demagogicamente contra o “sistema”, são o pior que o sistema capitalista tem e cuja ascensão só agravaria ainda mais os problemas e as razões desse descontentamento.
O PCP intervirá com as suas propostas e soluções, não desperdiçará nenhum avanço, apontará o caminho da política alternativa, patriótica e de esquerda, como caminho incontornável a um país desenvolvido e soberano. Uma política alternativa que responda cabalmente aos problemas do povo e do país, que liberte Portugal de constrangimentos e imposições contrários aos interesses nacionais. Uma política que enfrente e rompa com os interesses do grande capital e que assuma a necessidade da libertação do país da submissão ao euro e às imposições da União Europeia.
Num momento em que se adensam condições mais favoráveis para a política de direita, em que emergem ostensivamente projetos antidemocráticos, em que prossegue e se acentua a ofensiva ideológica que, centrada no ataque ao PCP e no semeio do preconceito anticomunista, visa o próprio regime, a democracia e as liberdades, conquistas libertadoras da Revolução de Abril e plasmadas na Constituição aprovada no dia 2 de abril de 1976. Cada comunista deve contribuir para a defesa dos Valores de Abril.
A ofensiva anticomunista, a mobilização de todos os instrumentos de condicionamento ideológico, a parafernália de meios postos a que recorrem os centros do grande capital revelam com nitidez quem, aqueles que querem perpetuar o sistema de dominação capitalista, identificam como perigo e inimigo principal.
A ostensiva exibição de um sistema que não dá outra perspetiva a milhões de seres humanos que a negação dos seus direitos e a condenação à pobreza, que revela a obscena realidade de, nestes tempos de pandemia, em que milhões são lançados na miséria e privados de acesso a vacinas, florescem como nunca os lucros dos gigantes tecnológicos, dos colossos da indústria farmacêutica ou as fortunas incomensuráveis de um punhado de pessoas, marca uma realidade que torna mais óbvia e imprescindível da sua superação.
A denúncia do que é o capitalismo, a exposição do sistema iníquo de exploração e desigualdades em que floresce, o obstáculo que representa à construção de uma sociedade onde direitos, bem-estar e condições de vida sejam plenamente realizados inscreve-se, articulada com a luta por objetivos concretos e pela revelação das razões que impedem a satisfação de aspirações e realização de uma vida melhor, emerge como questão de acrescida atualidade.
É para estes objetivos específicos e gerais de luta que os trabalhadores e o povo podem contar todos os dias com os comunistas, mesmo na defesa dos Valores de Abril. Alguns julgam redimir com a sua militância de apenas ostentar o “cravo vermelho” no dia de 25 de Abril. Exige-se muito mais e a cada dia, Abril e Maio, de novo com a força do Povo, tem que ser reforçado ao longo do ano. Não basta dizer que vivemos mais tempo em democracia do que os 48 anos da ditadura fascista, pois hoje o Capital apoia os saudosistas do fascismo, os exemplos da Europa são bem elucidativos, basta verificar que na vizinha Espanha os fascistas governam em algumas regiões. As conquistas sociais e civilizacionais exigem maior militância e não podemos esquecer enquanto houver exploração do Homem pelo Homem que a nossa ação não acaba.

* Militante do PCP

Sobre o autor

Honorato Robalo

Leave a Reply